| Foto: Mariane Pereira. |
Hajimê!
Este é o grito de comando do árbitro para dar início à luta no Judô. Traduzindo do japonês, significa "começar!". A Associação Judô Shaoran, do bairro Prefeito José Walter, deu o grito de comando do seu início há aproximadamente dois anos, e desde então, vem lutando para tirar crianças e adolescentes da ociosidade das ruas e levá-los aos tatames da disciplina e cidadania.
Sob a tutela da sensei(instrutora) Perpétua Socorro, cerca de 50 alunos reúnem-se na garagem da casa de uma vizinha para realizarem os treinos. O espaço foi cedido pela moradora Ana Leal, 53, que se prontificou em ajudar. " Eu soube por um amigo que eles treinavam no meio da rua, então ele me pediu que eu cedesse o espaço da minha garagem pra eles. Esse trabalho que ela faz precisa ser valorizado", afirma.
Da máquina de costura ao tatame
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| Sensei Perpétua Socorro Foto: Arquivo pessoal. |
Perpétua conheceu o esporte aos 10 anos de idade, quando iniciou um curso de corte e costura - uma iniciativa da mãe, no prédio onde atualmente se localiza o Centro Comunitário do bairro. "Sempre que eu passava pra beber água, via as aulas de Judô numa sala vizinha e
me interessei pelo esporte. Daí, quando saía para as aulas de corte e costura, na verdade eu ia mesmo era praticar Judô," lembra sorrindo. O kimono, confeccionado com saco de açúcar, já ficava guardado na sala de aula à espera da judoca. Após as costuras e entrega apressada dos moldes, a aluna escapava para os treinos. E assim, nasceu o gosto pela modalidade.
O sonho de Perpétua foi interrompido pelo casamento e o nascimento dos filhos. Aos 34 anos e após um processo de divórcio, ela resolve voltar aos tatames. Incentivada por um pastor evangélico, que fora colega de treinos e agora dava aulas na escola onde ela ia deixar o sobrinho. "Eu estava sem pique para treinar, pesando 72 kg, já tinha tido filhos, mas ele me disse que eu só precisava de garra e determinação, pois nunca era tarde para voltar ao Judô", explica.
As oportunidades foram surgindo. Hoje, ela contabiliza nove anos ensinando o esporte no Programa Mais Educação. Na escola evangélica, onde retomou a prática, trabalhou como voluntária durante cinco anos e há dois anos e meio vem dando aulas no local. A oportunidade de formar sua própria turma surgiu quando ela percebeu que muitos alunos destacavam-se e iriam precisar de ajuda.
Pequenos lobos, grandes cidadãos
| Foto: Mariane Pereira. |
Incentivada por um grupo de oito alunos, a sensei decidiu começar os treinos na garagem de sua própria casa. Mesmo sem tatame e um local apropriado, os alunos foram divulgando e convidando os amigos. Para surpresa de Perpétua, logo estava com 50 alunos para treinar. "A gente usava a garagem para preparar o condicionamento físico. Eu os fazia correr dois a três quarteirões por cerca de quinze vezes e a gente lutava na rua", recorda.
Por meio de realização de sorteios e bingos, a turma conseguiu comprar nove tatames, que hoje, segundo Perpétua, já estão danificados. O grupo conseguiu duas lonas para revestir os tatames por cima. Mais adiante, conseguiram um espaço mais amplo cedido pela Ana Leal.
As viagens realizadas para campeonatos, representando o estado foi o pontapé para um passo mais adiante. O grupo passou a se chamar Associação Judô Shaoran, nome que significa "pequeno lobo", uma vez que seu início foi com um pequeno grupo de oito alunos. Hoje, com a ajuda de alunos mais experientes, Perpétua já formou turmas de graduados e também dá aulas para crianças com síndrome de Down, autismo e deficiência visual.
"Desde quando conheci esse esporte, aprendi com o professor Ribamar( com quem começou) que o Judô não forma só atletas, mas cidadãos", destaca. Acompanhando o comportamento dos alunos na escola e em casa, Perpétua afirma que procura visitar a todos nos finais de semana, ajudando em problemas familiares, e se possível, financeiros. O importante, afirma a instrutora, é tirar as crianças e os jovens das ruas e colocá-los sobre o tatame.
Dificuldades
Além da falta de espaço próprio e de material, a Associação reclama também da falta de patrocínio para que os alunos participem de campeonatos fora do estado. "Ano passado, em novembro, nós conseguimos levar cinco alunos para o Rio
de Janeiro e ficamos em quarto lugar no ranking geral. Se eu
tivesse conseguido mais patrocínio, teria levado mais alunos, mas devido a essa
falta, não foi possível", lamenta. Ela frisa ainda que dos cinco alunos, dois conseguiram classificação para a Argentina, mas devido a falta de verba, não foi possível enviá-los.
A judoca lembra ainda das dificuldades que o grupo enfrentou em uma viagem ao Rio de Janeiro. "Numa troca de ônibus em Pernambuco, devido a problemas, descobrimos que haviam roubado nossa bolsa com os kimonos. Foi um desespero. Então, tivemos que pedir emprestado de outros
estados para que a gente pudesse competir. Apesar disso, ainda conseguimos ficar em quarto
lugar".
Conquistas
Mesmo passando por dificuldades, a Associação demonstra que tudo isso serviu para fortalecê-los ainda mais. Eles já conquistaram seis troféus e muitas medalhas nas diversas competições pelo estado e fora dele também. "Se eu levar 20 alunos numa competição, todos eles se classificam, do
terceiro ao primeiro lugar", relata com orgulho. Eles já participaram de várias competições, dentre elas em Santa Quitéria, Paraíba, Pernambuco e Rio de Janeiro.
Rio 2016
A luta da Associação agora é para tentar enviar um aluno à categoria de base dos Jogos Olímpicos. Com a mãe doente e apenas o pai trabalhando, o rapaz procura conseguir recursos. "Ele precisa de alimentação, hospedagem, kimonos, pois ele é de família carente. Está trabalhando de 14h às 22h para conseguir juntar dinheiro. A gente está correndo atrás de patrocínio, mas até agora a resposta é não", lamenta Perpétua.
| João Batista, 18, faixa preta. "Meu sonho de competir nessas Olimpíadas foi barrado, mas não vou desistir até conseguir. Temos bons atletas, mas nos falta patrocínio." |
| Anderson Oliveira, 19, faixa laranja. "Participei do primeiro campeonato e quando me classifiquei em segundo lugar, percebi que era isso que queria para mim." |

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