quarta-feira, 2 de março de 2016

De Paracuru para o Surfe Mundial

É fácil olharmos para a história do esporte brasileiro e vermos atletas que superaram obstáculos e hoje são grandes vencedores. Obstáculos que tratam-se de lesões, falta de dinheiro, e condições melhores para treino, seja qual for o esporte. Hoje o É Campeão traz uma guerreira Cearense para você conhecer, ela era a única representante brasileira no Circuito Mundial de Surfe do ano passado, foi bicampeã brasileira e duas vezes vice no mundial. No último campeonato mundial terminou na 14° colocação, porém já conseguiu apoio para poder estar no Circuito de 2017.


Imagem  Blog Vós


Estamos falando de Silvana Lima nascida em Paracuru, exatamente na praia do Ronco do Mar. Hoje com 30 anos de idade, vivendo em Ilhéus na Bahia, passa a maior parte do tempo viajando pelo mundo para competir depois de tanta insistência, pois não queria ser só mais uma nessa longa estrada que queria trilhar. Silvana precisou vender casa, carro e alguns cachorros para poder prosseguir, foi nascida e criada na praia onde lá mesmo aprendeu a surfar, com pequenos pedaços de madeira, por que na época a família não tinha condições de ter uma prancha. Como atleta profissional e experiente, Silvana conviveu e convivi com as dificuldades do esporte, onde espera mais oportunidades de formação  de base, patrocínios e campeonatos regionais para dar uma alternativa ás muitas surfistas que acabam trabalhando como modelo para se manterem no esporte.


Imagem  Blog Vós


De onde surgiu a oportunidade pro surfe?

Silvana - Eu tinha vários amigos surfistas que moravam no Rio - gente do Paracuru e do Titanzinho, em Fortaleza, como Lucinho Lima, Adilton Mariano, e Pablo Paulino, dentre outros. Eles contaram pro Udo Bastos (que mais tarde viria a ser meu shaper por um tempo) que tinha uma menina aqui no Ceará que surfava muito, e que se tivesse uma oportunidade ia mandar muito bem. Aí Udo ligou pra minha mãe: "A senhora poderia liberar a Silvana pra morar aqui com a gente no Rio de Janeiro?". Foi uma loucura pra ela, imagina. Todo mundo falando mal do Rio, dizendo que era perigoso, mas aí ela me ouviu. Eu disse: "mãe, deixa eu ir, por que nem eu e nem você podemos deixar passar essa chance de mudar de vida". Aí ela foi ao Fórum, assinou o papel que permitisse que eu viajasse sozinha e então eu fui embora pro Rio. Foi aí que tudo começou.

Como foi no Rj? 

Silvana - Foi uma loucura, por que fui morar com mais 10 meninos na casa mas, pelo menos, todos eles respiravam surfe o tempo todo. Aquilo pra mim foi novo, morar com essa molecada, e ainda por cima, com todo mundo surfando. Eles me respeitaram muito, e agradeço a eles, porque, querendo ou não tem muito surfista que só fala besteira das meninas. Eu ia surfar com eles todos os dias, e foi assim que meu surfe evoluiu mais ainda, por que eles quebravam as ondas, e eu ali do lado, vendo e aprendendo tudo que podia. 


Imagem Blog Vós



Desse pessoal que você falou, alguém também deslanchou na carreira? 

Silvana - Uns dois, dos dez que estavam comigo. Pablo Paulino foi bicampeão mundial júnior e, sem patrocínio a muito tempo, voltou pra casa. Lucinho Lima desistiu também. Adilton Mariano ainda corre nos campeonatos, Martins Bernado ainda corre no Rio, mas é fazendo outra coisa. A galera não tem como continuar sem patrocínio. O surfe brasileiro está no auge - tivemos dois campeões mundiais seguidos, o Gabriel Medina em 2014 e o Adriano de Souza em 2015, mas mesmo assim não está sendo bom para os rapazes como um todo. Daí você imagina como tá a situação para as meninas. O surfe feminino está há cinco anos sem competição no Brasil, tá todo mundo parado. 90 % das meninas estão sem patrocínio (...)

E no Paracuru, o que mudou? 

Silvana - Quando saí daqui, tinha um preconceito enorme com quem surfava, por incrível que pareça. Se dizia que era coisa de vagabundo que não queria saber de estudar e que se envolvia com drogas. Hoje esse pensamento mudou, muitos pais incentivam, por que os moleques vão nos campeonatos locais e chegam em casa amarradões com notebook debaixo do braço, roupa de marca, prancha nova. Alguns ganham até moto no fim de ano. Eles passaram a ver o surfe também como uma fonte de renda, um trabalho. Na época, eu encontrava meus amigos e sempre tinha um que dizia "poxa, meu pai quebrou a prancha que comprei", era revoltante. Mas tem que mudar mais, por que ainda há quem pense que é coisa de vagabundo, mas é mais um esporte no Brasil. Hoje só consigo passar as festa de fim de ano aqui, por que no Brasil mesmo só fico uns dois meses ao todo, por causa das etapas mundiais. Mudaria um monte de coisa no Paracuru, inclusive meu irmão tem um projeto que se chama Talentos da Praia que busca dar um futuro pra molecada.

Por falar em futuro, como você imagina o seu?

Silvana - Surfando. Até o corpo dizer assim pra mim: "não dá mais!". Mas o que eu vejo é que o meu surfe está evoluindo. Faço umas manobras nos treinos que se fossem nos campeonatos, seria uma nota 9, talvez um 10. Um dia vai ser, pode acreditar.






                                                                                                 

                                                                                              Fonte: Blog Vós

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